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Se você se interessou pelo título e começou a ler, eu respondo já: tudo.
O escritor e artista plástico Ziraldo Alves Pinto falou, pela boca do Menino Maluquinho, uma das mais inabaláveis verdades sobre Educação já ditas neste país: ler é mais importante do que estudar. A esta afirmação eu acrescentaria um saber, no início na frase, antes de ler. Saber ler, e compreender o que se lê, é mais importante do que estudar.
Nesta recém-terminada Bienal do Livro, em São Paulo, soube de uma importante senhora da Educação Federal um dado simplesmente aterrorizante: cresce assustadoramente o índice de adultos alfabetizados que simplesmente não compreendem aquilo que lêem.
Esta informação,
vinda de um membro de um governo capitaneado por um intelectual, deveria
bastar para que se invocasse a Lei de Segurança Nacional e botar
todas as tropas da Educação na rua, mas é melhor não
pensarmos nisso porque, pelo que vimos nas comemorações dos
500 anos, para este governo capitaneado por um intelectual, botar a tropa
na rua significa descer
indiscriminadamente o porrete na população
indefesa; os índios, no meio.
(E quando sabemos os salários de fome dos professores das escolas públicas, somos obrigados a considerar que o governo intelectual quer matá-los à míngua...)
Bem, voltemos à questão da leitura. De sua compreensão.
Conheço uma moça que andou proclamando aos quatro ventos que havia matriculado sua filha de sete anos em um colégio onde os alunos são obrigados a andar com um Aurelinho (dicionário) debaixo do braço. Dia desses, conheci a menininha, já com dez anos. Seu vocabulário cabe literalmente dentro de um dedal de costura. O que apenas comprova uma verdade irrefutável: conhecimento não se adquire por osmose axilar.
(Neste caso, ou esta moça é muito boba ou este colégio deveria sofrer alguma sanção prevista no Código de Defesa do Consumidor...)
Também conheço um sujeito que se pensa o máximo na educação do pimpolho, de oito anos, no quesito leitura. Digo “se pensa” porque este sujeito até que se esforça bastante, mas discuto o que ele considera “progresso” na educação do garoto.
Semana passada
este sujeito esteve comigo em uma livraria, “programa” que faço
três ou quatro vezes por mês, mas ele, que apenas forçado
“comparece” a uma livraria, estava à cata de um livro que a escola
pedira para seu mimoso filhote. A muito custo, convenci-o de que
devia levar,
também, dois outros títulos
para o garboso rapaz de oito anos. Um deles de Ana Maria Machado,
este monumento maravilhoso que acaba de (muito mais que merecidamente)
ganhar a láurea Hans Christian Andersen, uma espécie de Nobel
para a literatura infantil e juvenil. Pois não é que
este sujeito meu amigo achou a aquisição “muito cara...”?!
Este sujeito,
e também a moça minha conhecida, cuja filha carrega um Aurelinho
debaixo do braço e tem um vocabulário que cabe em um reles
dedal, evidentemente não levam seus fedelhos brilhantes, lindos
e maravilhosos a uma livraria como passeio de final de semana, porque livro
é muito caro. Com certeza, este sujeito e esta moça, minha
amiga, sequer cogitaram a Bienal do
Livro, de São Paulo, como um
programa legal para seus amados petizes.
É bem
verdade que a Bienal, cobrando R$ 5,00 a entrada, mais R$ 10,00 pelo
estacionamento, e oferecendo cheques-livro
no valor de 10% de cada compra, certamente não contribuiu em nada
para que as vendas fossem maiores em volume (não em numerário).
Aliás, nesta Bienal, o que me chamou atenção foi o
fato de as editoras venderem seus livros pelos mesmos preços de
capa praticados pelas livrarias.
Explico: se
não têm, as editoras, de arcar com os custos (cada vez mais
elevados!) dos distribuidores, nem com o percentual (também elevado)
cobrado pelas livrarias, por que então os preços idênticos?
É bem verdade que a montagem de um estande custa caríssimo,
o metro quadrado na Bienal tem quase o preço de um carro importado,
mas repassar pura e simplesmente
este investimento para o bolso do público
visitante parece-me falta de marketólogos competentes nas editoras...
Fujo do assunto, a digressão é um dos meus defeitos mais marcantes.
Quero falar da responsabilidade que pais e mães têm na formação do gosto pela leitura de seus filhos porque, para muitos, esta responsabilidade é das escolas – não é. As escolas até que se esforçam, incentivando a leitura, mas ler é um hábito que se adquire em casa. É com três ou quatro anos que menininhos e menininhas começam a imitar os pais, e se os pais forem leitores (pelo menos de um jornal diário e uma revista semanal) é certo que os filhotes serão atraídos pela leitura até mesmo pela curiosidade natural da idade.
Importante
é que, em meio às festas de aniversários (e como eles
fazem festas de aniversário!), clube, zoológico, lanchonetes
de grife, parques, cinema de desenhos animados (observo que aqui estou
falando de famílias que têm pai e mãe, ou só
pai, ou só mãe, mas que têm uma vida vamos dizer...
normal), os pais também se preocupem em levar seus maravilhosos
e inteligentíssimos guris a teatros, livrarias, shows, e mesmo a
prosaicas bancas de revistas – gibi
também é legal.
Mais, que leiam com seus filhos, que conversem com eles sobre o que leram
juntos, uma conversa franca, divertida ou séria, mas sempre de igual
para igual.
Criança adora ser tratada assim, de igual para igual. O que me parece óbvio e muito justo; afinal, são crianças, não débeis mentais.
O que me parece problemático é que, ao começar a juntar as letras, a compreender o que está lendo, os famigerados petizes começam também a perguntar. Perguntas cabeludas que muitos pais, a maioria eu diria, não estão preparados para responder. Preferem não conversar a respeito, protegidos sob o manto do “ainda não é hora, ele/ela não tem idade para isso”. E consideram muitas perguntas inconvenientes, inadequadas.
Ora, se tem um indivíduo que não tem hora, este indivíduo chama-se criança. E, para uma criança, como para os jornalistas, não existem perguntas inadequadas ou inconvenientes.
As respostas, sim, é que costumam ser muito inadequadas ou por demais inoportunas.
O que esses pais e mães não
percebem é que a leitura é um ótimo, talvez o melhor,
instrumento para contribuir na educação que pretendem dar
a seus fabulosos rebentos. Porque permite conversa franca e desarmada,
abre caminhos para dúvidas a esclarecer, perguntas imprevisíveis
que povoam
o imaginário infantil.
Vou além: essas leituras familiares são a base para que, teens, esses meninos e meninas não apavorem seus estressados pais porque deixaram de ler um livro que vai ser bjeto de uma prova na escola.
Vou mais além: lendo e conversando com os filhos, é mais seguro aos preocupados e zelosos pais não terem, um dia, seus impressionantes herdeiros como reféns de um famigerado traficante de esquina.
Talvez eu tivesse algo mais a falar, mas penso que já transmiti o que desejava.
Com a palavra,
os pais e mães.
Diorindo Lopes Júnior (diorindo@bol.com.br) é jornalista
e
trabalha na Assessoria de Imprensa do Banespa, em São Paulo.
É autor de “O
Sol em Capricórnio” (Atual/Saraiva Editora) e “Cesta de 3” (Alis
Editora), que
integra a lista anual de Livros Altamente Recomendáveis da Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
